CONTRA A FELICIDADE?

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Algum ser humano — no gozo de normalidade psico-mental, para os atuais padrões da cultura ‘civilizada’ — pode ser contra a felicidade... e ainda tecer aplausos à melancolia? Eu diria que sim! Afinal de contas... somos livres para pensar e, neste momento, até mesmo para expressar os nossos pensamentos.  Uma pessoa que não consegue ser feliz, por exemplo, pode tentar convencer a si própria que a felicidade está no seu estado de espírito depressivo — é o que se pode entender, numa ‘leitura’ rápida, sobre uma obra literária que se opõe à felicidade.

Against Happiness: In Praise of Melancholy ou Contra a Felicidade: O Elogio da Melancolia, que ganhou o título em  português, Para que Felicidade? Livro escrito por um professor de inglês, Eric G. Wilson, da Wake Forest University (Carolina do Norte - USA) — muita coragem e ousadia, do teacher Wilson, para publicar verdades tão polêmicas, pra não dizer contestáveis.

Como era de se esperar, o autor tem enfrentado severas e pesadas críticas, pela grande imprensa do seu país e, em entrevista ao site Opinião e Notícia, diz que vem sendo mal interpretado por muita gente, inclusive por seus leitores.

Escrevi "Against Happiness" para oferecer um contraponto aos livros de auto-ajuda, que elegem a felicidade como o objetivo primordial da vida e, portanto, dizem que a tristeza é algo a ser superado ou evitado geralmente com um método bastante simples de cinco ou dez passos. Em meu livro, quero mostrar que a tristeza não é apenas uma parte natural da vida, mas na verdade uma parte essencial dela.

Curiosamente, os comentários sobre a obra, no site citado, são, na sua quase absoluta maioria, favoráveis às concepções questionáveis do autor, Eric Wilson. O que é estimulante para pesquisadores e estudiosos do comportamento humano isentos em interesses na situação geral de carência afetiva e estresse em que vive a sociedade humana, principalmente o povo brasileiro.

Mal entendido ou não, eu diria que o autor da obra: não foi lá muito feliz na colocação geral do próprio raciocínio ao grande público, foi conveniente ou faltou mais argumentos no seu arrazoado. Comportamento literato ou científico normal e esperado [poucos argumentos], em um tema dessa natureza, para uma sociedade cujos indivíduos pouco conhecem a si mesmos e as áreas (cognitivas) que cuidam da matéria ainda patinam nos achismos, nas dúvidas e incertezas.

Sem entrar em questões polêmicas, há verossimilhança de que o ente natural é evolutivo. Nesse caso, as espécies (incluindo o homem, neste estágio de consciência, mesmo não sendo uma espécie) carecem sofrer certas agressões, passar por estados mórbidos, para sair da inércia do comportamento e avançar no processo que a natureza, pacientemente, as legou — sem querer entrar no mérito de que as situações críticas nos levam a valorizar melhor os momentos prazerosos.

Até o status humano, no estágio de consciência que estamos experimentando, o vivente não enxerga muito além do que a vista alcança, para comandar o próprio percurso evolutivo; como ele é extremamente apegado às vivências passadas e do momento (basta ver como as mudanças culturais são difíceis de serem realizadas); não resta outra alternativa, à natureza, senão impor-lhe alguns impulsos de aprendizagens, muitas vezes severos devido a própria resistência do implicado.

Por outro lado, a tristeza e a melancolia são estados de leveza e passividade que nos capacitam a pensar em nós mesmos. Se observados e bem aproveitados, esses momentos podem nos render informações importantes, do nosso mundo interior, das quais estamos necessitando para seguir adiante. Como afirma o autor, na entrevista ao site Opinião:

Quando estamos tristes costumamos questionar o statu quo, nos tornamos mais introspectivos. Sendo mais introspectivos, descobrimos partes de nós que nunca teríamos encontrado caso permanecêssemos sempre contentes. Quando encontramos estas novas habilidades, geralmente queremos que elas se desenvolvam. Criamos assim novos modos de ser e novas maneiras de ver as coisas. Hoje em dia, a tristeza é auto-reveladora e criativagrande poder de observação.

Na verdade, os infortúnios e desditas da vida nos ensinam mais que as boas situações de alegrias e venturas. E esses momentos, nem um pouco prazerosos, nós preferimos nos desfazer deles a qualquer custo, sem saber que estamos perdendo importantes lições para a vida, que está à nossa frente.

l   Caso nós possamos e venhamos fazer uma retrospecção das nossas vidas, vamos encontrar muitas e ótimas oportunidades perdidas no passado, fruto, exatamente, de situações criticas não vividas; das quais conseguimos fugir à custa de drogas antidepressivas, livros de auto-ajuda ou com o auxílio de terapeutas.

Em um momento evolutivo, à nossa frente, quando atingirmos o nível ótimo da consciência que ora experimentamos, o que nos habilitará na condução dos nossos próprios destinos, o processo natural se fará com mais suavidade, isto é, sem os solavancos que temos suportado até aqui.

Não estamos pregando que se deve sofrer os infortúnios passivamente, sem tratá-los, mas sim ter um mínimo de resistência às opressões e observar essas vivências; elas nos trazem lições impressionantes. Ademais, o interior de sistema do ser dispõe de incríveis soluções para o restabelecimento do equilíbrio psicofísico — basta ter coragem e dar oportunidade de ação interior ao próprio organismo.

 

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