PROJEÇÃO ASTRAL

Você já se projetou no espaço cósmico durante um sono... consciente de si mesmo, mesmo que não tenha um domínio razoável sobre o ambiente e nem sobre os próprios atos? O popular desdobramento ou viagem astral. Desprender-se do corpo físico pesado e, na integral leveza de ser, levitar no espaço, em uma espécie de sonho lúcido. É uma sensação das mais agradáveis que se pode experimentar nesta dimensão planetária. Mas nem tudo são flores, há coisas horrendas e bem sombrias também por aquelas bandas além matéria.

Nas minhas poucas andanças pelo ambiente essencial (a outra banda da ‘laranja’) andei circulando, faz bem pouco tempo, por uma zona caliginosa; daquelas regiões pungentes, a tal ponto, que a imaginação humana mais infame não é capaz de alcançar. Um local dantesco que poderia fazer tremer o próprio Dante Alighieri, e que, certamente, os líderes das nossas igrejas cristãs atribuiriam, se tivessem a oportunidade de visitar, a uma sucursal do Inferno ou, no mínimo, um posto avançado dessa suposta região.

Criaturas humanas faltando pedaços, por todos os cantos, ou pedaços animados de gente espalhados por todo aquele ambiente tenebroso, fétido e mal cuidado ao extremo; com algozes circulando aos seus lados a lhes impor tratamentos adversos, os mais diversos, o tempo inteiro. O curioso e ainda mais horripilante de tudo aquilo é que aqueles frangalhos de corpos, que pareciam entorpecidos, dispunham de vida animada e gozando de plena individualidade e de inteligência: sentiam, eram capazes de pensar, de responder com nexo e situarem-se no espaço, ainda que pouco ou nada soubessem sobre aqueles momentos de extraordinária aflição – o mal e o sofrimento nos seus limites máximos, eu diria.

Devia, no mínimo, sentir alguma sensação de medo ou de repulsa; mas nada daquele horror me abalava, tudo que fazia era observar as cenas, no atacado, como se fosse uma grande massa flamejante nas suas unidades de composição (ou de decomposição?). Estava sim, de alguma forma, surpreso com o meu estranho comportamento de serenidade diante daquele palco dos horrores envolvendo vidas humanas – era como se nada daquilo me fosse estranho, muito pelo contrário.

Chamou-me a atenção, em um dado momento da visita, uma cena comum, com uma pessoa – que lembrava uma mulher jovem, quase que totalmente mutilada dos quatro membros – sendo acoitada por uma senhora de meia idade. Não entendi, de imediato, o motivo do meu foco de atenção voltado para aquela barbárie específica, o que logo pude prestar melhor atenção e compreender – a vítima esboçara uma espécie de suspiro, em voz frágil e sussurrante, a qual pude entender, nas palavras dirigidas a si mesma, alguma coisa nos seguinte termos: Nossa! Por que tanto sofrimento? Será que a vida é assim, uma eterna aflição? Será que não há alguma coisa que possa aliviar tanta agonia, tanta angústia?

A passagem havia me levado à reflexão e, depois de passar os pensamentos em revista, pude arrancar das memórias mais uma incursão da mesma natureza; porém sem o quadro final.

Pude entender, no momento de murmúrio da jovem, que alguém naquele teatro, finalmente, estava apto a abandonar aquele palco tenebroso. Eu não tinha autoridade nem poderes pra resgatá-la, ou ao menos intervir em seu benefício – era mero espectador e devia limitar as minhas ações ao ato de observar. Tudo o que me foi facultado proceder naquele momento foi emitir alguns raios harmoniosos, com a mão direita, na sua direção e percebi que faziam um efeito efêmero, mas salutar – algo como algumas poucas gotas de água, ou um pano bem umedecido, nos lábios de um sedento quase à morte.

A viagem astral termina sem que eu pudesse saber, ao certo, se a jovem foi resgatada e nem mesmo se aquele teatro existiu ou se existe pra valer em algum rincão inóspito do cosmo infinito. Mas ficou uma sensação, estranhamente agradável, de que os sonhos que vivenciamos, no repouso dos nossos sonos, não são somente sonhos. E o mais importante, a mensagem de fundo daquela vivência, foi que o bem pode ser extraído das entranhas mais profundas do mal:

A jovem que padecia, devido o seu estado lastimável, as condições do ambiente e um algoz a chicoteá-la, certamente teria um caminho de paz e harmonia a seguir, a partir daquela reflexão e súplica a si mesma. Ou seja, a tomada de consciência de si e do estado de ser, no questionamento do momento de angústia, abriria as portas para o caminho inverso: a jornada de resgate, de paz e harmonia.

A exata experimentação com o mal, mesmo que em situação subjetiva para os nossos conceitos correntes, fatalmente o fará enxergar o bem – o oposto do mal – mais de perto e se maravilhar. Ainda que esse momento tarde a chegar, para a nossa psicologia apressada.

Conhecer a mente, nos detalhes de constituição, vai abrir-lhe um mundo de alternativas e possibilidades, e vai também proporcionar a visão de outras dimensões com os seus valores, que contém de tudo que você é capaz de imaginar e infinitamente mais que esse pouco – a experimentação do cotidiano irá confirmar a tese.

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